Trombofilia na gravidez: o que descobri depois de duas perdas gestacionais

Trombofilia na gravidez: o que descobri depois de duas perdas gestacionais

Depois de duas perdas gestacionais, descobri a trombofilia, enfrentei quase 300 injeções de anticoagulante e descobri que um diagnóstico não precisa ser o fim da esperança.

Durante muito tempo, eu achei que o maior desafio para gerar uma vida seria engravidar novamente.

Depois de duas perdas gestacionais, porém, eu entendi que existiam outras perguntas que precisavam ser feitas. Perguntas sobre o meu corpo, meu histórico familiar e, principalmente, sobre o que poderia estar acontecendo para que duas gestações não tivessem seguido adiante.

Foi nesse caminho de investigação que a trombofilia entrou na minha história.

E eu conto isso porque, quando você passa por uma perda gestacional, é muito fácil acreditar que a culpa foi sua ou algo que você tenha feito e até sentido… Também é fácil ouvir de alguns médicos que você precisa perder 3 bebês pra começar as investigações. É muito dolorido pra uma mãe passar por esse tipo de sentimento, ainda mais por 3 vezes seguidas. Você se sente muito perdida e sem saber que decisão tomar.

Eu passei por isso.

Depois de duas perdas, comecei a investigar

Depois de perder duas gestações, comecei a procurar respostas.

Uma das coisas que chamou atenção na minha história foi o fato de minha mãe já ter tido trombose. Isso, associado ao meu histórico gestacional, fez com que a investigação sobre trombofilia passasse a fazer parte da conversa.

Mas nem todo profissional que encontrei inicialmente enxergou a possibilidade da mesma maneira.

Em determinado momento, uma médica chegou a dizer que não poderia ser trombofilia e, além de discordar da possibilidade, eu senti que minha preocupação foi desdenhada.

Talvez uma das partes mais difíceis de uma investigação médica seja justamente essa: você está vulnerável, tentando entender por que algo aconteceu, e recebe uma resposta que faz você questionar até aquilo que está sentindo.

Não estou contando isso para dizer que todo caso de perda gestacional é causado por trombofilia. Não é.

Inclusive, a relação entre trombofilias e perdas gestacionais é complexa, e nem toda pessoa com uma alteração relacionada à coagulação precisa de anticoagulante durante uma gravidez. As próprias diretrizes médicas destacam que a investigação e o tratamento devem considerar o histórico individual e os fatores de risco.

Estou contando porque, no meu caso, investigar fez sentido diante da minha história.

E porque eu gostaria que outras mulheres soubessem que fazer perguntas sobre a própria saúde não é exagero.

Afinal, o que é trombofilia?

De forma simples, trombofilia é uma condição em que existe uma predisposição maior à formação de coágulos sanguíneos.

Ela pode ser hereditária ou adquirida. Algumas pessoas descobrem a condição depois de apresentar uma trombose; outras chegam à investigação por causa do histórico familiar ou de situações específicas relacionadas à gestação. A FEBRASGO destaca justamente a importância de considerar a história clínica e familiar na avaliação do risco tromboembólico.

E existe uma coisa importante que eu gostaria de deixar clara: trombofilia não significa que uma pessoa necessariamente terá uma trombose ou que uma gravidez necessariamente dará errado.

Ter uma predisposição não é receber uma sentença.

Foi uma das coisas que precisei aprender.

No meu caso, também apareceu uma alteração genética chamada MTHFR em heterozigose. É importante fazer uma ressalva aqui porque existe muita informação confusa na internet sobre MTHFR.

Ter uma variante do MTHFR, isoladamente, não significa automaticamente que uma pessoa tenha uma trombofilia clinicamente relevante nem que precise de anticoagulação. A interpretação depende do conjunto da avaliação médica, dos exames, do histórico pessoal e familiar e de outros fatores de risco. A própria ACOG ressalta a importância de uma avaliação criteriosa das condições hereditárias e do contexto clínico.

Por isso, não quero transformar a minha experiência em uma receita para outras mulheres.

Quero contar a minha história.

Na minha gravidez, o tratamento foi parte da rotina

Quando finalmente engravidei novamente, eu já sabia que aquela gestação seria acompanhada com muito mais atenção.

No meu caso, a conduta escolhida pela equipe médica envolveu anticoagulante injetável e aspirina, além do acompanhamento durante a gestação e também no pós-parto.

Eu cheguei a tomar praticamente 300 injeções ao longo da gravidez e das seis semanas depois do parto.

Quando falo esse número em voz alta, até eu penso: “Meu Deus, eu realmente fiz isso?”

Fiz.

Dia após dia.

A injeção era aplicada na barriga. E vou contar uma coisa que ninguém me explicou direito antes: o líquido do anticoagulante incomodava mais do que a agulha.

A agulha é pequena e a aplicação é rápida. O que realmente incomodava era a sensação do medicamento entrando, além das marcas e pequenos hematomas que apareciam.

Mas era totalmente superável.

Eu aplicava sozinha.

E, depois de algum tempo, aquilo virou parte da rotina.

Assim como escovar os dentes, tomar banho ou preparar o café, havia um momento do dia em que eu precisava aplicar a injeção.

Não era agradável.

Mas era possível.

E acho importante falar isso porque, quando alguém recebe a notícia de que poderá precisar de anticoagulante durante a gravidez, a primeira reação pode ser de desespero.

Eu também tive medo.

Mas descobri que o medo que existe antes de começar é muitas vezes maior do que a dificuldade real de fazer o tratamento.

E sabe o que aconteceu?

A minha gravidez foi normal e tranquila.

Essa talvez seja a parte da história que mais gosto de contar.

Porque durante muito tempo eu associei gravidez a medo.

Depois de duas perdas, era difícil simplesmente relaxar. Cada ultrassom carregava uma expectativa enorme. Cada sintoma podia virar motivo para preocupação.

Mas aquela gravidez aconteceu.

Eu fiz o tratamento.

Fiz acompanhamento médico.

Fiz as aplicações.

Segui as orientações.

E minha gravidez caminhou.

Não foi uma gravidez perfeita porque nenhuma gravidez é. Houve consultas, exames, preocupações e momentos de ansiedade.

Mas, olhando para trás, eu consigo dizer que foi uma gestação tranquila.

E isso mudou a maneira como eu enxergava a palavra “trombofilia”.

Antes, ela parecia uma ameaça.

Depois, comecei a enxergá-la como uma condição que podia ser acompanhada e, quando indicado, tratada.

Trombofilia não precisa significar desespero

Talvez essa seja a mensagem mais importante que eu gostaria de deixar para quem acabou de descobrir uma alteração relacionada à coagulação:

respire.

Eu sei que é muito mais fácil falar isso do que sentir.

Quando aparece uma palavra médica que você nunca ouviu antes, a primeira coisa que fazemos é pesquisar no Google. E, em poucos minutos, estamos lendo histórias assustadoras, complicações, perdas, tromboses e uma lista enorme de coisas que podem acontecer.

Eu fiz isso.

Mas uma condição de saúde precisa ser entendida dentro da história daquela pessoa.

A gravidez, por si só, já aumenta o risco de eventos tromboembólicos, e esse risco também existe no período pós-parto. Por isso, quando uma mulher possui fatores de risco adicionais, a equipe pode avaliar a necessidade de medidas preventivas, incluindo anticoagulação em situações específicas.

Isso não significa que toda mulher com trombofilia precise tomar anticoagulante.

Significa que algumas mulheres precisam de prevenção e acompanhamento individualizado.

Foi o que aconteceu comigo.

E, para mim, saber que havia uma estratégia de tratamento trouxe muito mais segurança do que simplesmente viver com medo.

Depois das perdas, eu precisava recuperar a confiança no meu corpo

A parte emocional dessa história talvez seja ainda mais importante do que as próprias injeções.

Depois de uma perda gestacional, existe uma tendência de olhar para o próprio corpo procurando um culpado.

“Será que fiz alguma coisa?”

“Será que trabalhei demais?”

“Será que comi alguma coisa errada?”

“Será que meu corpo não consegue sustentar uma gravidez?”

Eu me fiz perguntas assim.

Mas, com o tempo, percebi que meu corpo não era meu inimigo.

Ele precisava ser compreendido.

Eu precisava encontrar profissionais que olhassem para a minha história inteira, e não apenas para um exame isolado.

A investigação não apagou as minhas perdas.

Nada poderia fazer isso.

Mas me deu uma coisa que eu precisava muito: a sensação de que, em uma próxima gravidez, eu poderia fazer algo diferente.

E fiz.

Se você descobriu trombofilia, não pense que sua história acabou

Hoje, olhando para trás, eu não vejo aquelas centenas de injeções apenas como algo doloroso.

Eu vejo como parte do caminho que percorri para chegar até a minha filha.

Cada aplicação tinha alguns segundos de incômodo.

Algumas deixaram marcas.

Algumas doeram mais.

Algumas foram aplicadas em dias em que eu estava cansada e só queria dormir.

Mas eu apliquei todas.

E faria novamente.

Não porque o anticoagulante seja algo simples ou porque toda gestante deva usar, mas porque para mim, naquele contexto, aquele era o tratamento indicado pela minha equipe médica.

A trombofilia entrou na minha vida depois de duas perdas gestacionais.

Entrou acompanhada de medo, dúvidas e até de uma experiência ruim com uma profissional que não levou minha preocupação da maneira como eu esperava.

Mas ela não determinou o final da minha história.

Eu engravidei.

Tratei.

Acompanhei.

Apliquei quase 300 injeções.

Passei pelo parto.

Continuei o anticoagulante por seis semanas depois do nascimento.

E hoje posso olhar para trás e dizer: foi difícil, mas foi totalmente possível.

Se você está vivendo algo parecido, eu espero que consiga encontrar uma equipe que escute sua história, avalie seus riscos individualmente e explique com clareza as opções disponíveis.

Não transforme um diagnóstico em uma sentença.

Não transforme uma palavra médica em uma previsão do seu futuro.

E, principalmente, não pense que você precisa atravessar tudo isso sozinha.

Às vezes, o tratamento não é o fim da tranquilidade.

Às vezes, o tratamento é justamente o que permite que a tranquilidade volte.

Este texto relata a minha experiência pessoal e não substitui avaliação médica. Trombofilia possui diferentes tipos e o tratamento durante a gravidez deve ser individualizado. Não inicie, suspenda ou altere anticoagulantes ou aspirina por conta própria.