Eu sempre sonhei em ser mãe: minha história de perdas gestacionais e trombofilia

Eu sempre sonhei em ser mãe: minha história de perdas gestacionais e trombofilia

O caminho até a maternidade: infertilidade, perdas, trombofilia e fé

Eu sempre sonhei em ser mãe.

Quando era criança, eu amava brincar de boneca. Passava horas imaginando como seria ter uma família, como seria cuidar dos meus filhos e, principalmente, sonhava em ter uma menina.

Naquela época, eu não fazia ideia de tudo o que existia entre o sonho e a realidade.

Eu não sabia que, muitos anos depois, eu passaria por perdas, exames, diagnósticos, medo, tratamentos e tantas incertezas até finalmente conseguir segurar minha filha nos braços.

Mas antes de chegar até ela, eu precisei aprender algumas coisas sobre o tempo.

Eu achava que tinha tempo

Eu cresci nos anos 90, em uma geração de mulheres que foi ensinada a ter muito medo de engravidar na adolescência.

E isso não é necessariamente algo ruim. Fomos incentivadas a estudar, construir uma carreira, conquistar nossa independência, viajar, trabalhar e ter nossos próprios objetivos.

A maternidade poderia esperar.

Primeiro a faculdade. Depois o emprego. A estabilidade. Uma promoção. Um relacionamento mais estruturado. Uma casa. Uma viagem. Mais dinheiro.

Sempre existia alguma coisa que precisava acontecer antes.

E eu também fui vivendo assim.

Sou formada em Engenharia de Produção. Trabalhei durante anos em uma empresa de telecomunicações, depois passei pela área de engenharia e, durante a pandemia, comecei a trabalhar com dados e tecnologia.

Eu estava construindo a minha carreira.

E, por muito tempo, acreditava que precisava alcançar determinado nível de estabilidade antes de ter filhos.

O problema é que o momento perfeito nunca chegava.

Sempre havia alguma coisa para resolver.

Algum objetivo para alcançar.

Alguma mudança para fazer.

Até que, em algum momento, percebi que eu estava esperando por uma vida que talvez nunca ficasse perfeitamente organizada.

Aos 32 anos, depois de sete anos de casamento, tomei uma decisão que durante muito tempo havia adiado:

era hora de começar a tentar engravidar.

Eu achava que demoraria muito.

Não demorou.

A primeira gravidez

Em outubro de 2023, descobri que estava grávida.

Eu estava eufórica.

Lembro da felicidade daquele momento, de corrermos para contar para a nossa família e de começar a imaginar tudo o que viria pela frente.

Eu sempre gostei da ideia de esperar os três primeiros meses antes de contar a notícia para pessoas menos próximas. Então, enquanto guardava aquele segredo, eu já carregava dentro de mim uma alegria enorme.

Finalmente, aquele sonho que existia desde a minha infância estava acontecendo.

Até que, perto das sete semanas, fui fazer uma ultrassonografia.

Eu estava sozinha.

E saí daquela consulta com uma notícia que nunca imaginei receber.

O bebê não estava se desenvolvendo como deveria.

Era uma gravidez anembrionária.

Algumas notícias parecem demorar alguns minutos para realmente chegar até a gente.

Naquele momento, eu não sabia nem como reagir.

Depois veio a tristeza.

No dia seguinte, comecei a ter um sangramento intenso e precisei procurar atendimento médico.

E foi justamente em um dos momentos de maior vulnerabilidade da minha vida que vivi uma situação que até hoje me marcou.

Uma médica chegou a me acusar de ter provocado um aborto.

Eu estava perdendo meu bebê.

E, naquele momento em que precisava de acolhimento, precisei lidar também com uma acusação extremamente dolorosa.

Aquela experiência me fez perceber que, além da dor da perda, algumas mulheres ainda precisam enfrentar a falta de sensibilidade de pessoas que deveriam estar ali para cuidar delas.

Mas naquele mesmo dia aconteceu algo que, olhando para trás, considero um pequeno afago de Deus.

Uma conversa inesperada

No fim daquele dia, entrei em um Uber.

A motorista começou a conversar comigo e, em determinado momento, perguntou se eu não tinha um bebê para levar no carro.

Ela comentou que nunca tinha tido a oportunidade de levar um bebê no carro depois da saída de uma maternidade.

Eu contei o que havia acontecido.

E então ela me contou a própria história.

Ela também havia perdido quatro bebês.

Quatro.

E aquela mulher, que eu provavelmente nunca mais encontraria, começou a compartilhar comigo a sua história de vida.

Ela me consolou.

E havia algo muito forte naquela conversa: apesar de tudo o que ela havia vivido, aquela mulher tinha conseguido seguir em frente.

Hoje, ela é mãe de duas crianças saudáveis.

Eu saí daquele carro ainda triste, mas aquela conversa ficou comigo.

Talvez Deus tenha colocado aquela pessoa no meu caminho justamente naquele momento para me lembrar que uma história dolorosa não necessariamente termina onde começou.

Eu precisei voltar ao trabalho no dia seguinte

No dia seguinte à perda, eu precisava trabalhar.

Eu não tinha a sensação de estabilidade que me permitiria simplesmente parar e cuidar de mim.

Eu não confiava que minha ausência seria compreendida e tinha medo das consequências profissionais.

Então eu voltei.

Eu estava emocionalmente destruída, mas estava trabalhando.

Essa experiência também diz muito sobre a minha relação com o trabalho e sobre algumas das escolhas profissionais que fiz ao longo da vida — e esse é um assunto que ainda vou contar muito por aqui.

Naquele momento, porém, eu só queria acreditar que aquilo tinha sido uma fatalidade.

Uma primeira gravidez que não deu certo.

Eu pensava:

“Na próxima será diferente.”

Mas não foi.

A segunda perda

No ano seguinte, passei por uma segunda perda.

E dessa vez foi diferente.

Na primeira gravidez, eu ainda conseguia me convencer de que tudo daria certo na próxima.

Na segunda, o medo começou a tomar outro espaço.

Eu comecei a pensar que talvez aquele sonho que eu carregava desde criança nunca se realizasse.

E isso foi especialmente doloroso porque a perda aconteceu no dia seguinte ao Dia das Mães.

Enquanto tantas pessoas comemoravam, eu estava tentando entender por que parecia tão difícil para mim viver aquilo que eu sempre imaginei como algo tão natural.

Quando cheguei do hospital, comecei a louvar a Deus.

Era a única coisa que eu sentia que conseguia oferecer naquele momento.

Eu não tinha respostas.

Não sabia o que fazer.

Então comecei a procurar.

Eu precisava de respostas

Passei a pesquisar histórias de outras mulheres que também haviam passado por perdas gestacionais.

Foi assim que encontrei vídeos no YouTube de mulheres que haviam vivido situações semelhantes à minha.

Em uma dessas buscas, encontrei a história de uma mulher que havia perdido quatro bebês e que falava sobre a médica que a acompanhava.

Foi quando conheci o trabalho da Dra. Bianca Selva.

Decidi parar de apenas chorar e começar a procurar respostas.

Comecei meu acompanhamento com ela e fui recebida com muita atenção. Ela ouviu meu histórico e começamos uma investigação bastante extensa.

Foram mais de 80 exames de sangue, além de exames de imagem.

E, aos poucos, algumas respostas começaram a aparecer.

Vieram diagnósticos e alterações que eu não sabia que faziam parte da minha história: endometriose, hipotireoidismo, resistência à insulina, alterações em células NK e, entre tantas outras descobertas, a trombofilia.

Aquela palavra passou a fazer parte da minha vida.

E junto com ela vieram novas perguntas.

Será que agora eu conseguiria engravidar?

Será que conseguiria levar uma gravidez até o fim?

Será que eu perderia novamente?

Um ano e meio tentando entender o meu corpo

Passamos cerca de um ano e meio tratando essas questões de saúde.

Também investigamos e corrigimos algumas deficiências de vitaminas e outras questões relacionadas à minha saúde e à do meu marido.

Foi um período de muitos altos e baixos.

Havia dias em que eu tinha certeza de que seria mãe.

Em outros, eu simplesmente não acreditava mais.

Nesse período, ainda precisei lidar com outras coisas.

Passei por uma cirurgia para retirar um nódulo benigno na mama.

Meu marido precisou viajar a trabalho por dois meses.

E, por causa de tudo isso, as tentativas precisaram ser adiadas mais uma vez.

Eu já estava cansada de esperar.

Mas foi justamente nesse período que minha relação com a fé mudou.

Aprendendo a agradecer pelo que ainda não existia

Comecei a orar e agradecer pela vida dos meus filhos que ainda nem existiam.

Eu me lembrava de um versículo de Hebreus:

“A fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.”

Comecei também a ler o Salmo 113, especialmente o último versículo, que fala sobre Deus fazer da mulher estéril uma mãe de filhos.

Eu não sabia como a minha história terminaria.

Mas decidi continuar acreditando.

Quando meu marido voltou da viagem, retomamos as tentativas.

E, no mês seguinte, descobrimos que estávamos grávidos novamente.

A gravidez que eu tanto temi

Dessa vez, eu não consegui simplesmente relaxar e aproveitar a gravidez.

Eu tinha medo.

Muito medo.

Cada exame carregava uma mistura de esperança e ansiedade.

Por causa do meu histórico e do acompanhamento médico, iniciei diariamente o protocolo de injeções de Clexane, além de outras medicações indicadas para o meu caso.

Aquela gravidez foi muito diferente da imagem que eu tinha construído na cabeça sobre como seria estar grávida.

Eu queria comemorar, mas também tinha medo de me permitir comemorar.

Queria acreditar, mas uma parte de mim estava sempre esperando uma notícia ruim.

Cada semana vencida era uma pequena vitória.

E, aos poucos, fomos avançando.

Uma semana.

Depois outra.

Depois outra.

Até que chegou o dia em que eu percebi que aquela gravidez estava realmente acontecendo.

Tive uma gestação muito saudável.

E, finalmente, depois de tudo o que havíamos vivido, minha filha nasceu.

Hoje ela está aqui

Enquanto escrevo este texto, minha filha está mamando.

E existe algo muito difícil de explicar em olhar para ela e lembrar de tudo o que aconteceu antes de sua chegada.

Aquela menina que brincava de boneca e sonhava em ter uma filha não fazia ideia do caminho que teria pela frente.

Ela não sabia sobre infertilidade.

Não sabia sobre perdas.

Não sabia sobre exames.

Não sabia sobre trombofilia.

Não sabia sobre injeções.

Não sabia quantas vezes sua mãe choraria.

Mas também não sabia que, um dia, estaria escrevendo sobre tudo isso enquanto sua tão sonhada filha mamava ao seu lado.

Hoje eu consigo olhar para aquela mulher que chorou em tantos Dias das Mães com mais carinho.

Eu sei o quanto doeu.

Sei quantas vezes me senti esquecida.

Quantas vezes me perguntei por que parecia tão fácil para algumas mulheres e tão difícil para mim.

E sei que nem sempre tive respostas.

Se você também está esperando

Eu não quero contar a minha história como se ela fosse uma fórmula para a história de outra mulher.

Eu não sei qual será o caminho de cada pessoa.

Não sei quais respostas cada uma encontrará.

E não quero transformar a minha experiência em uma promessa.

Mas, se você está passando por uma espera parecida, existe algo que eu gostaria de ter ouvido naquela época:

você não precisa passar por isso sozinha.

Procure ajuda médica.

Investigue.

Cuide da sua saúde.

Faça aquilo que estiver ao seu alcance.

Permita-se pedir ajuda quando estiver cansada.

E, para aquilo que estiver além das nossas mãos, encontre aquilo que sustenta você.

Para mim, foi a fé.

Houve momentos em que tudo o que eu conseguia fazer era orar.

E foi assim que aprendi a esperar.

Hoje, eu olho para minha filha e entendo que a minha história não foi apenas sobre esperar por ela.

Durante todo aquele tempo, eu também estava me tornando a mulher que seria capaz de recebê-la.

E talvez seja justamente isso que eu tenha aprendido sobre esperar:

nem sempre conseguimos controlar quando o nosso sonho vai acontecer. Mas podemos decidir quem seremos enquanto caminhamos até ele.